sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Um sopro blindado

Quando era criança, adorava pegar uma flor dente-de-leão seca e soprar suas sementes para que flutuassem ao vento.
Quem nunca gostou de fazer isso?
Ver as sementes ao vento
Semeando novas flores pelo jardim.
Durante a maior parte da minha vida, eu me definiria como uma dente-de-leão seca.
Que se despedaçava em várias partes ao menor toque.
Tão suave e tão frágil.
Acho que a fragilidade exacerbada me obrigou a mudar, porque nem sempre as sementes caíam em solo fértil.
A vida nos impõe mudanças.
Na natureza é a evolução das espécies.
Entre os humanos é simplesmente uma forma de proteção.
Com o passar do tempo, tive que criar uma casca para me proteger.
Para ser forte tive que me blindar.
Essa blindagem, obviamente, tem um lado positivo.
Se não me protegesse, corria o risco de me despedaçar.
E juntar as pétalas-sementes-secas nem sempre é possível.
Diria quase impossível.
Estar blindada me protegeu de vários sopros.
Em vários momentos, a vida ficou mais fácil.
Mas a blindagem não só nos protege.
Ela nos deixa mais resistentes.
Mas, algumas vezes, pode nos deixar resistentes demais.
E ela também pode nos fechar para alguns sentimentos.
Enfim, todo bônus tem seu ônus.

sábado, 17 de agosto de 2013

Sobre cães e gatos

Dia de vacinação pública é sempre estressante para quem tem gato. O maior estresse para mim, no entanto, não é a vacina em si, mas o percurso até chegar ao posto. E a permanência no local. Há sempre um carro barulhento e um cachorro inconveniente que não para de latir.
Embora a Sofia não goste do barulho da rua, o instinto curioso dos felinos fala mais alto, e ela fica o tempo todo com a cabecinha para fora da cat bag.
Desta vez, ela não se conteve. Meteu o carão para fora e arregalou os grandes olhos verdes:
- Sofia, para de dar pinta, tem um monte de cachorros aqui.
- (Cochicha) Eles são tão esquisitos...
- Sofia, para de olhar assim...
- Olha aquele ali... Tão grande, mas tão bobo...
- É um Labrador. É uma característica da raça.
- Nossa, e aquele outro, todo encaracolado? Tão inconveniente: pula, late, abana o rabo sem parar... Chatinho...
- Sofia, é um Poodle. Essa raça é assim mesmo, sem noção. Eles nunca sabem quando estão incomodando.
- Ele é hiperativo?
- Sofia, para.
- E aquele todo escandaloso? O que é aquilo? Tão feinho, coitado, parece um morcego.
- É um Pinscher. Sofia, para, ele pode implicar com você.
- Mas por que todos os cachorros estão latindo? A vacina nem doi. Nem miei...
- Sofia, você é uma gata. E os felinos são discretos, educados, chiques... É uma outra civilização, uma outra cultura.
- Mas por que eles latem sem parar?
- Sofia, eles são cachorros! E cachorros gostam de chamar atenção. Devem ser carentes, sei lá.
-Ihhh, olha aquele lá!! Está fazendo caquinha na calçada!!!! Cruzes, que nojo!! Será que ele não sabe que caquinha é só na caixinha?
- Sofia, cachorros não sabem usar a caixinha. Fazem as necessidades em qualquer lugar.
- Nossa, que bichos sem educação! E por que os donos não ensinam?
- Acho que eles não são tão espertos, ou não conseguem aprender. Não são tão limpos quanto os gatos, ou os donos não sabem ensinar, sei lá.
- E os donos têm que andar com um saquinho recolhendo o cocozinho?
- Sim. Tem até Lei para isso.
- É mesmo? Jura?!! Tem uma Lei que obriga os donos a recolherem a caquinha do cachorro????
- Tem, Sofia. Alguns donos são tão sem noção quanto seus cachorros. Por isso, o Estado tem que fazer Leis para ensiná-los e educá-los também.
- Enfim, os cachorros latem sem parar, são chatos, pulam, fazem escândalo, não sabem usar a caixinha, fazem caquinha na rua e obrigam os donos a recolher...  Deve ser tão inconveniente ter um desses, não?
- É verdade. Deve ser terrível! Por esses e vários outros motivos que eu tenho você.

- Miauuuuu..

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Sobre um certo olhar

Sabe quando algo fica marcado na sua memória?
Pode ser um gesto, um sorriso, um aperto de mão,
uma gentileza, uma lágrima, uma situação qualquer.
Não importa.
Pode até não ser uma imagem boa.
Pode ser triste.
Ou pode ser um susto.
Não importa o que, como, ou com quem.
Pode ser com um estranho.
Ou com alguém que mesmo sendo completamente desconhecido, te marca de uma forma qualquer.
Podemos até relembrar do olhar ou do susto, enfim, dessa imagem do que aconteceu por algum tempo.
Ou podemos esquecê-la rapidamente.
Ela também pode ficar ali no nosso HD interno à espera de que, em algum momento, seja relembrada, resgatada e reativada.
Enfim...
Há exatamente 20 anos presenciei uma situação que me marcou muito.
Um cara que eu não conhecia, passou muito mal e foi levado para o hospital.
Foi durante uma greve.
Nunca mais o vi. Achei que tivesse morrido. 
Enfim, o tempo realmente nos prega peças...
E, às vezes, pode nos oferecer boas surpresas...
As marcas, provavelmente de tempos difíceis, não me deixaram reconhecê-lo num primeiro momento.
Mas bastou ouvir o relato sobre o incidente ocorrido com ele no passado, que para ele também foi muito marcante, que aquela imagem reapareceu em minha memória.
Nítida e com detalhes.
Foram 20 anos.
Mas o olhar continua o mesmo.

domingo, 10 de junho de 2012

Sobre perdas...

Do último texto até agora tanta coisa aconteceu na minha vida que ainda estou processando. Algumas coisas foram mais fáceis de enfrentar, outras nem tanto. Perdas e ganhos. Muito mais perdas do que ganhos, é verdade.
Pior do que tudo é perder algo que para mim era tão raro e importante. E especial. E foi tão... Enfim...

Por mais que procure o melhor restaurador que exista, ele não vai conseguir juntar os cacos que sobraram. Tanta mágoa e ressentimento que é impossível restaurar... Vai sempre faltar uma peça...

Já estou me acostumando a enfrentar situações difíceis. Na minha vida elas normalmente nunca chegam sozinhas. Comigo sempre estão acompanhadas por outras igualmente ruins ou até piores. Desta vez foram três...
   
Mas, tenho certeza de que é possível tirar alguma coisa boa desses momentos ruins. Na pior da hipótese, não seguir pelo mesmo caminho para não correr o risco de topar novamente naquela pedra e me machucar, ou, quem sabe, não ser tão transparente, usar máscaras como todos fazem normalmente, porque a vida cobra – e caro – de quem não consegue ser assim.

O fato de virem três coisas ruins juntas acabou dividindo a dor. Diluiu. Talvez o problema – que muitos devem até achar que é mais grave – está sendo mais fácil de enfrentar, já que as outras perdas estão sendo infinitamente mais dolorosas para mim.
Em um mês eu vivi momentos tão doces e tão amargos...

Enfim, como não quero, nem vou ser uma pessoa rancorosa e amargurada, só vou guardar os doces.

Porque só eles merecem ser guardados.